A Crucificação de Kilmar Garcia

Por  Marcel Frison (*)

Kilmar Garcia é o salvadorenho que vivia legalmente nos EUA e foi deportado para uma prisão de segurança máxima em El Salvador, segundo o Governo Trump afirmou inicialmente, por um “erro administrativo”. 

No período que viveu nos EUA ele se casou com uma norte-americana e gerou três filhos. 

Kilmar não possui antecedentes criminais nos EUA e tampouco em El Salvador, não há provas de envolvimento dele com organizações criminosas ou terroristas nos EUA. 

Kilmar foi sequestrado pelas forças de imigração norte-americana nas levas de deportações sumárias impostas contra os chamados imigrantes ilegais e que atingiram milhares de pessoas.  Portanto, sem processo judicial e baseado em suposições. 

A justiça norte-americana determinou que Trump garantisse o retorno aos EUA de Kilmar. Trump disse que não poderia fazê-lo, pois, a custódia dele estava sob o controle de El Salvador. 

Em recente encontro entre Trump e Bukele (o presidente salvadorenho) em que trataram deste e de outros assuntos. Bukele, fez a seguinte declaração: “não devolverei Garcia por que não poderia traficar um terrorista para os EUA”. 

Em ato contínuo, o governo Trump mudou sua versão a respeito do caso e afirmou que o deportado tinha envolvimento com organizações terroristas nos EUA, sem apresentar quaisquer evidências ou provas contra ele. 

Os Romanos crucificavam criminosos ou desafetos no intuito de lhes punir com a tortura, mas principalmente, para servirem de exemplo, ou seja, difundir o terror entre seus cidadãos e colonizados. O recado era: sigam nossas ordens ou terminarão na cruz! 

Como sabemos, uma figura muito conhecida e referência para milhões de pessoas em todo o mundo teve este destino. Jesus não cometeu crime algum, era um dissidente das interpretações a respeito da palavra de Deus e orientações dos rabinos e chefes políticos dos judeus. 

Interessante que não foram os romanos que condenaram Jesus à crucificação, e sim os representantes do seu povo.  Herodes lavou as mãos.

Longe de querer comparar os personagens, suas histórias e os sofrimentos a que foram submetidos, podemos dizer que Kilmar Garcia está sendo politicamente crucificado. 

O seu único crime é ser um salvadorenho pobre, na lógica nazifascista do trumpismo (do bolsonarismo e outros movimentos correlatos) significa ser um rato e uma praga a ser eliminada.  

Paradoxalmente, o “rato” presidente de El Salvador dá o aval necessário para este descalabro. Ele o faz, em nome das “30 moedas” oferecidas pelo Império para dar continuidade à sua política da higienização que aplica contra os pobres do seu país.  E, no final das contas, para manter Garcia na cruz.

O recado está claro, não importa a sua inocência ou a sua legalidade, se for pobre e latino-americano, se ultrapassar a fronteira ou tentar se manter no território, vai ser colocado na cruz. 

Na verdade, a mensagem é mais profunda, sustenta a diferença entre os seres humanos, desumanizando os pobres, os imigrantes, e os que, de alguma forma, enfrentam o Império e seus aliados. 

O trágico não é, exatamente, isto acontecer, mas a incapacidade da humanidade em reagir, o silêncio dos organismos internacionais, a passividade geral diante deste desprezo aos direitos humanos. E, igualmente, a concordância de milhares, talvez, milhões, de supostos cristãos e cristãs com esta crucificação. 

Uma boa reflexão para todos e todas.

(*)  Marcel Frison é militante e dirigente do PT de São Leopoldo (RS)


Comentários